
Método de combate à explosão anunciada pelo Presidente da República.
Uma gota de água pode assumir uma relevância especial. É o caso da famosa gota de água que tem a virtude de chegar ao copo no instante exacto em que ele está cheio até à borda. A gota de água que faz a diferença: imaginemos que ao lado do copo que a gota de água fez transbordar está uma geringonça eléctrica que entra em curto-circuito e explode, causando, se não um incêndio, pelo menos um ferimento grave na mulher que tinha a electricidade - suponhamos, sob a forma de um secador de cabelo - na mão. Por causa desse acidente, a mulher perderá a entrevista marcada e ficará no desemprego. Ou, se o acidente provocado pela gota de água for mais grave, a mulher acaba no hospital. O homem que ficara de se encontrar com ela, depois de seco o cabelo, pensa que ela rejeitou esse encontro. Suponhamos que se conheceram na véspera e que nessa mesma noite ele partirá para outro lugar e que nenhum deles ficou com o contacto do outro. Por causa de uma gota de água, um homem e uma mulher perderam um encontro que poderia ter alterado as suas vidas. Ou, se preferirmos, a mulher encontra no hospital alguém - um enfermeiro, um médico, um velho amigo - que alterará a sua vida. Quem diz um homem e uma mulher diz dois homens ou duas mulheres. Um dia perceberemos que todos somos diferentes como duas gotas de água. Para o melhor ou para o pior, a gota de água importa. A gota de água pode ser uma frase lançada em forma de faca. Uma frase que, mesmo inadvertidamente, corta. Todos temos um historial de gotas de água que nos transformaram.
A gota de água representa a diferença entre o copo que bebemos e o copo que nos encharca. O ano começou com uma mensagem inquietante do Presidente da República. Disse ele: "Com este aumento da dívida externa e do desemprego, a que se junta o desequilíbrio das contas públicas, podemos caminhar para uma situação explosiva." A metáfora da explosão não é certamente a mais tranquilizadora. Os portugueses estão, como o resto do mundo, habituados a "situações explosivas". Vêem-nas todas as noites nas televisões e acham que acontecem longe. Mas sucede que há dias um avião que ia da Holanda para os Estados Unidos também quase explodiu. Ora a Holanda não é assim tão longe. E nos aviões viajam pessoas que não são aquelas que estamos habituados a ver explodir e que estamos habituados a ouvir dizer que pertencem a "culturas outras" - certamente menos impressionáveis com os efeitos das explosões.
Antes de o fazer transbordar, as gotas de água vão enchendo o copo. É isso que cada gota de água faz: dá o seu contributo para ajudar a encher o copo. A "situação explosiva" a que se refere o Presidente Cavaco Silva é a da falência do país. Nem copo, nem água. Por isso, enquanto há copo, é importante que recolhamos todas as gotas de água que pudermos encontrar. O mercado de Inverno de jogadores de futebol abriu no passado dia 1 de Janeiro, e Portugal tornou-se imediatamente o campeão europeu das compras: os clubes portugueses gastaram já 18,8 milhões de euros em jogadores (contra 13,4 milhões em Itália, 3,7 milhões na Alemanha, um milhão em França e zero em Espanha, Inglaterra e Irlanda). A maioria dos produtos de alimentação diária têm uma taxa de imposto de 20 por cento. Já imaginaram quantos milhões de euros entrariam para o Orçamento de Estado se as compras de jogadores fossem taxadas, pelo menos, pela tabela do bife e do iogurte? Uma gota de água, é a resposta habitual. Exactamente. A gota de água que, somada a outras gotas de água, mataria a sede. Se todas as empresas aplicassem a regra que o empresário Alexandre Soares dos Santos, que o Expresso elegeu como figura do ano, aplicou às suas - congelar os salários de topo e subir os mais baixos -, outras gotas de água se juntariam a essas. O Estado deveria dar o exemplo. Agora que o presidente do Banco de Portugal parece encaminhar-se para o El Dorado do Banco Central Europeu, seria útil que se aproveitasse para baixar a tabela salarial do posto (17.817 euros mensais). Dois mil euros que fossem - coisa pouca. Menos de quatro salários mínimos, destes novos que o Governo impôs e que as confederações patronais acham exorbitantes (475 euros por mês). Ao fim de um ano, ter-se-iam poupado 24 mil euros. Uma gota de água. Quatro empregos. A sobrevivência de quatro famílias. Idênticas gotas de água poderiam ser extraídas da generalidade das empresas públicas. Até encher o copo, lentamente. É isso que fazem as gotas de água.
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010
Uma gota de água pode assumir uma relevância especial. É o caso da famosa gota de água que tem a virtude de chegar ao copo no instante exacto em que ele está cheio até à borda. A gota de água que faz a diferença: imaginemos que ao lado do copo que a gota de água fez transbordar está uma geringonça eléctrica que entra em curto-circuito e explode, causando, se não um incêndio, pelo menos um ferimento grave na mulher que tinha a electricidade - suponhamos, sob a forma de um secador de cabelo - na mão. Por causa desse acidente, a mulher perderá a entrevista marcada e ficará no desemprego. Ou, se o acidente provocado pela gota de água for mais grave, a mulher acaba no hospital. O homem que ficara de se encontrar com ela, depois de seco o cabelo, pensa que ela rejeitou esse encontro. Suponhamos que se conheceram na véspera e que nessa mesma noite ele partirá para outro lugar e que nenhum deles ficou com o contacto do outro. Por causa de uma gota de água, um homem e uma mulher perderam um encontro que poderia ter alterado as suas vidas. Ou, se preferirmos, a mulher encontra no hospital alguém - um enfermeiro, um médico, um velho amigo - que alterará a sua vida. Quem diz um homem e uma mulher diz dois homens ou duas mulheres. Um dia perceberemos que todos somos diferentes como duas gotas de água. Para o melhor ou para o pior, a gota de água importa. A gota de água pode ser uma frase lançada em forma de faca. Uma frase que, mesmo inadvertidamente, corta. Todos temos um historial de gotas de água que nos transformaram.
A gota de água representa a diferença entre o copo que bebemos e o copo que nos encharca. O ano começou com uma mensagem inquietante do Presidente da República. Disse ele: "Com este aumento da dívida externa e do desemprego, a que se junta o desequilíbrio das contas públicas, podemos caminhar para uma situação explosiva." A metáfora da explosão não é certamente a mais tranquilizadora. Os portugueses estão, como o resto do mundo, habituados a "situações explosivas". Vêem-nas todas as noites nas televisões e acham que acontecem longe. Mas sucede que há dias um avião que ia da Holanda para os Estados Unidos também quase explodiu. Ora a Holanda não é assim tão longe. E nos aviões viajam pessoas que não são aquelas que estamos habituados a ver explodir e que estamos habituados a ouvir dizer que pertencem a "culturas outras" - certamente menos impressionáveis com os efeitos das explosões.
Antes de o fazer transbordar, as gotas de água vão enchendo o copo. É isso que cada gota de água faz: dá o seu contributo para ajudar a encher o copo. A "situação explosiva" a que se refere o Presidente Cavaco Silva é a da falência do país. Nem copo, nem água. Por isso, enquanto há copo, é importante que recolhamos todas as gotas de água que pudermos encontrar. O mercado de Inverno de jogadores de futebol abriu no passado dia 1 de Janeiro, e Portugal tornou-se imediatamente o campeão europeu das compras: os clubes portugueses gastaram já 18,8 milhões de euros em jogadores (contra 13,4 milhões em Itália, 3,7 milhões na Alemanha, um milhão em França e zero em Espanha, Inglaterra e Irlanda). A maioria dos produtos de alimentação diária têm uma taxa de imposto de 20 por cento. Já imaginaram quantos milhões de euros entrariam para o Orçamento de Estado se as compras de jogadores fossem taxadas, pelo menos, pela tabela do bife e do iogurte? Uma gota de água, é a resposta habitual. Exactamente. A gota de água que, somada a outras gotas de água, mataria a sede. Se todas as empresas aplicassem a regra que o empresário Alexandre Soares dos Santos, que o Expresso elegeu como figura do ano, aplicou às suas - congelar os salários de topo e subir os mais baixos -, outras gotas de água se juntariam a essas. O Estado deveria dar o exemplo. Agora que o presidente do Banco de Portugal parece encaminhar-se para o El Dorado do Banco Central Europeu, seria útil que se aproveitasse para baixar a tabela salarial do posto (17.817 euros mensais). Dois mil euros que fossem - coisa pouca. Menos de quatro salários mínimos, destes novos que o Governo impôs e que as confederações patronais acham exorbitantes (475 euros por mês). Ao fim de um ano, ter-se-iam poupado 24 mil euros. Uma gota de água. Quatro empregos. A sobrevivência de quatro famílias. Idênticas gotas de água poderiam ser extraídas da generalidade das empresas públicas. Até encher o copo, lentamente. É isso que fazem as gotas de água.
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010

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