sábado, 25 de abril de 2009

Tanto disto nesta horta...

Para que servem os cartazes eleitorais???
O cidadão que alguma vez modificou o seu sentido de voto por causa de um cartaz, que levante o braço. Num país onde a educação e a cultura continuam a ser territórios mais do desprezados, asfixiados pela política - que tudo faz para os manter estanques, de modo a que a população permaneça incapaz de perguntar, descobrir e exigir -, é natural que as pessoas votem por amor ao padre, ao filho ou à vizinha. Já tivemos autarcas a oferecer electrodomésticos em troca de votos, temos autarcas que se gabam de fugir ao fisco e continuam a receber os votos e o aplauso do povo, que clama: "Rouba, mas faz". Há políticos que vão porta a porta explicar aos velhinhos analfabetos em que símbolo devem pôr a cruzinha - e para esse efeito, os panfletos de propaganda podem ser úteis.
Mas a quem serve a invasão de cartazes nas grandes cidades? Às agências de comunicação, claro. Há meses, Manuela Ferreira Leite clamava que não sabia o que isso era - mas entretanto, que remédio, aprendeu: lá está ela, gigantesca, em todas as esquinas, anunciando uma coisa que eu aliás duvido que excite alguém: Política de verdade. A uma hora destas, o pessoal já não aguenta nem mais um grão de verdade. Já chega: não se arranja por aí uma mentirazita animadora? Uma coisa que nos dê alento para sorrir ao levantar da cama, de forma a que nos animemos a trabalhar mais e melhor, para podermos acabar com a crise mais depressa?
Agora que a ASAE já chegou aos decotes e ao tamanho das saias das funcionárias públicas - os códigos de apresentação dos homens continuam por escrutinar - que alegria no trabalho nos restará? Nem o perfume escapa: quando a PIDE dos costumes da Função Pública proíbe "perfumes agressivos", inclui o cheiro a suor de três dias, ou só os perfumes engarrafados? E, mais uma vez, só os delas? É que há limites para a verdade que uma cidadã está disposta a enfrentar.
Pelo menos, nos cartazes, Manuela quase sorri. Mas alguém irá votar por causa de um quase sorriso, mil vezes repetido? Alguém votará em Vital Moreira por causa da expressão "Nós, Europeus" ou da caligrafia da sua assinatura, também mil vezes repetida, ao lado do seu retrato sobre um fundo misto de sangue e mar? Alguém votará no PCP por causa dos cartazes que nos gritam a necessidade de dar "mais força" a este partido?
E assim por diante. Ainda a vasta procissão eleitoral vai no adro e já a capital do país parece os destroços de uma feira popular - o que não deixa de ser irónico, dado que a mesma capital arrasou há anos a rentável feira popular que tinha, e nunca mais tratou de criar outra -, divertimento simples para a arraia-miúda é coisa que nem os políticos chiques nem os intelectuais sonantes estão dispostos a defender. Cheira a sardinha assada, a balões, a carrinhos de choque e a farturas. Não fica bem.
Para os supostos magos da "imagem" e da "comunicação", este ano não é de crise: há muito photoshop a fazer para tornar luminosos os mais pardos rostos, muita consultoria sobre cores de camisas e gravatas, muitos slogans a reinventar, por assim dizer, a partir de exemplos bem sucedidos lá pelas Europas dos ricos e pelas Américas ousadas. Louvo a iniciativa de José Sá Fernandes, de despoluir a Praça Marquês de Pombal - e a resposta dele aos que, de dedo em riste, o acusaram de também já ter prevaricado, é deliciosa, e deliciosamente portuguesa: "Não fui eu, foi o Bloco de Esquerda".
Ou seja: a culpa foi daqueles meninos que entretanto decidiram dar-lhe um pontapé. Note-se que o Bloco de Esquerda alegou como pretexto para se desfazer do Zé o empréstimo de uma praça da cidade, por um tempo curto, para a realização de um anúncio, a troco de obras definitivas nessa praça. O Bloco alegou isso, e uma coisa ainda mais feia, que foi a solidariedade do Zé face a uma colega brutalmente atacada por ter desencadeado uma auditoria que levou antigos administradores de uma empresa municipal ao banco dos réus.
Ora a mim parece-me que o facto de um candidato ter errado (no caso, ao usar cartazes num espaço protegido) não o deve impedir de assumir o erro e passar a fazer a coisa certa. Se mais vezes os políticos assumissem os seus erros e se se determinassem a corrigi-los, o país estaria de muito melhor saúde. Aliás, tenho pena que não se proíbam os cartazes políticos em todos os espaços urbanos. Ao contrário dos decotes, incomodam-me. Não tanto pela miséria estética, como pelo que cada um deles significa - dinheiro atirado à rua. Dinheiro nosso, que, mais uma vez, não é utilizado a nosso favor.


8:00 Quarta-feira, 22 de Abr de 2009

Por: Inês Pedrosa

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